Cultura

'Ó Pai Ó' aposta em pitada regional

SÃO PAULO (Reuters) - Inspirada numa peça teatral encenada pelo Bando de Teatro do Olodum nos anos 1990, "Ó Pai Ó", que estréia nacionalmente nesta sexta-feira, é uma tentativa de criar um produto com molho regional, no caso, o sotaque e a música baiana, a partir do ambiente do bairro histórico do Pelourinho, em Salvador.

O filme, aliás, prepara o lançamento de uma minissérie na TV Globo, que deve estrear em novembro.

Começando como comédia musical, o filme da diretora Monique Gardenberg (de "Benjamim") conta a história de Roque (Lázaro Ramos), aspirante a cantor que, como a maioria dos moradores do Pelourinho, dão duro para viver, sem carteira assinada.

Outros personagens do lugar são a dona de bar Neuzão (Tânia Tôko), a imigrante desiludida Psilene (Dira Paes), o motorista de táxi Reginaldo (Érico Brás), dividido entre a mulher grávida (Valdinéia Soriano) e o amante, o travesti Yolanda (Lyu Arisson). Vários outros travestis, camelôs e traficantes povoam esse mundo colorido, sensorial e às vezes perigoso.

Mesmo que seja véspera de Carnaval, nem só de dança, namoro e música se vive neste pedaço do mundo. A fronteira com o crime é tênue, até mesmo para os meninos Cosme (Vinicius Nascimento) e Damião (Felipe Fernandes), filhos da evangélica dona Joana (Luciana Souza).

Eles passam o dia na rua, dizendo para a mãe que vão ao culto religioso. Na verdade, ocupam-se com trambiques e até pequenos furtos na feira.

Muita axé music conduz o ritmo da trilha sonora, a partir da insistente canção-título, "Ó Paí Ó" (uma expressão baiana que significa "olhe para isso, olhe"), que dá nome ao filme. Ela é de autoria de Caetano Veloso e Davi Moraes, interpretada pelo próprio Caetano e Jauperi. Mas a trilha também traz Margareth Menezes, Tatau, Mariene de Castro, Banda Calypso e outros artistas.

Um ponto alto é a presença de Lázaro Ramos, confirmando sua competência, inclusive para cantar e dançar, completamente à vontade em sua terra e com seu sotaque. O mesmo não se pode dizer do também baiano e talentoso Wagner Moura, aqui numa atuação quase caricatural, ainda que seu diálogo sobre racismo com Lázaro esteja entre os pontos altos do filme, que termina em tom de tragédia social.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)