Entrevista: Andrea Werner, blog Lagarta Vira Pupa
A jornalista mineira Andréa Werner é conhecida pelas mães de garotos autistas e por interessados em educação inclusiva, pelo trabalho que faz no Blog Lagarta Vira Pupa. Aos 37 anos, ela se dedica, desde setembro de 2012, exclusivamente ao filho Theo e à causa do autismo através do blog. Andréa morou em Belo Horizonte, e foi para São Paulo logo após a formatura porque passou em um concurso de trainees de uma multinacional. Também morou no Rio por 2 anos e meio, por causa de trabalho, mas acabou voltando para São Paulo para se casar. Agora se prepara para uma nova mudança, dessa vez para Londres. Os contatos da Andrea são: www.lagartavirapupa.com.br, www.facebook.com/lagartavirapupa e o twitter: @lagartavirapupa. Acompanhe a entrevista da Andréa a Tudo Bem Ser Diferente.
Como surgiu a ideia do blog Lagarta Vira Pupa?
Eu tinha acabado de sair de um emprego e queria ocupar a cabeça. Comecei o blog como um desabafo e, também, para registrar a história do Theo. Achava, sinceramente, que ninguém ia ler. No máximo, a família. Acabei me enganando…
Por que escolheu esse nome para o blog?
Esse nome tem muitos significados. Primeiro porque, aos 2 aninhos, quando o Theo recebeu o diagnóstico de autismo, ele cantava vários pedacinhos de músicas. Uma das favoritas dele era uma do Cocoricó, chamada “a metamorfose da Borboleta”(segue o link pra quem não conhece: http://www.youtube.com/watch?v=8cQ8lBi5ask). A gente cantava o final de uma frase que terminava em “até o nome ela muda” e ele completava cantando “pupa, pupa, puuuupaaa”. E, quando nos perguntavam se o nosso filho falava, a gente sempre respondia “fala, ele até canta!”. O interessante é que essa história da lagarta virar pupa teve tudo a ver com o que vimos no desenvolvimento dele: ele foi um bebê completamente normal até 1 aninho, quando começou a regredir. Parou de bater palminhas, ficou mais isolado e introspectivo, se fechou. Brinco que a nossa lagartinha virou pupa. Mas agora, 3 anos depois do diagnóstico, já vemos uma linda borboleta começando a sair do casulo!
Qual o papel das redes sociais para discussão do combate ao preconceito e para inclusão social?
Antigamente, as pessoas saíam às ruas com faixas, faziam protestos, as aglomerações se juntavam e isso ganhava visibilidade na tv e nos jornais, o que ajudava na divulgação da causa. Isso ainda acontece hoje, mas ganhamos uma nova ferramenta que é a internet. Muitos chamam isso de “ativismo de sofá” como um desmerecimento. Eu acho que as ferramentas tecnológicas estão aí para serem usadas a nosso favor. O compartilhamento de causas via redes sociais tem um poder muito grande, dá muita visibilidade e gera ricas discussões que, muitas vezes, seriam inviáveis no cara a cara. E assim a conscientização sobre o preconceito e a inclusão vai se espalhando. É uma forma muito mais fácil de mobilizar as pessoas por uma causa.
Como você define “inclusão social” para crianças diferentes?
Viver em sociedade é conviver com as diferenças. É ir ao caixa eletrônico e ter uma velhinha na sua frente demorando. É demorar a passar na calçada porque tem um cadeirante à frente. É isso. Tem espaço pra todo mundo. Todo mundo tem que aprender a respeitar. E o ideal é que esse respeito às diferenças seja ensinado desde a primeira infância. A inclusão social das crianças com necessidades especiais começa na escola, e agrega para elas e para os outros também. Para elas, porque não podem viver em um gueto ou redoma para o resto da vida. Os pais não estarão ali pra sempre e elas vão precisar das outras pessoas. Para os outros, porque aprendem que ser diferente é normal, e se tornam adultos muito melhores e mais tolerantes.
Na sua opinião quais são os principais problemas para a inclusão hoje no Brasil?
Falta interesse e capacitação nas escolas particulares e muito investimento do governo para preparação dos ambientes e capacitação dos professores da escola pública. Algumas escolas ainda recusam a matrícula de alunos especiais com a desculpa de não terem como atender a essas crianças. Considero isso uma grande cara de pau. Se não teem como atender, é porque não buscaram formas de atender, não se capacitaram.
A lei do autista por si só garante a inclusão? O que será preciso?
A lei que foi promulgada no início do ano deve ajudar na inclusão, pois veio com punições claras ao gestor escolar que recusar matrícula de criança autista. De qualquer forma, aceitar a matrícula é só o primeiro passo. A criança não pode ficar jogada em um canto da sala. Tem que ter assistência, adaptação do material escolar, e muitos precisam de tutora 100% do tempo. Isso exige investimento. Infelizmente, as coisas no nosso país, muitas vezes, só funcionam no tranco. A nossa esperança é que, com a lei, as escolas particulares se vejam forçadas a investir em capacitação. E, na parte das escolas públicas, vamos ter que lutar por muito investimento do governo.
Algumas palavras para outras mães de crianças diferentes
A vida continua! Essa é a minha principal mensagem! A gente sofre um tranco quando vem um diagnóstico de autismo, ou de PC, ou de síndrome de down ou que quer que seja. Só queremos a felicidade dos nossos filhos. Mas o tempo passa, a gente aprende a conhecê-los melhor, vai comemorando cada pequeno avanço e vai vendo que eles são felizes da forma deles. O fato de termos alegrias diferentes nos torna mais humanos. Conviver com uma criança especial é um aprendizado diário.
Algumas palavras para a sociedade…
Tudo o que sai do padrão causa estranhamento. Mas cada um deve ter coragem para assumir os próprios preconceitos. Só assim a gente consegue ir eliminando um a um. Adoro aquela frase do Gandhi: “seja a mudança que você quer ver no mundo”.