Antropoceno e o Pensar-Musical
Acho que todo esforço de inovação deve ser apreciado, de alguma forma. Compreendo a ambição artística pela geração a partir da unificação, é uma potência criativa que devemos cultivar, entretanto, a ideia, ou visão, nem sempre se configura como um bom resultado, além disso, também é passível de ser criticada. O álbum "No Ritmo Da Terra" do projeto Antropoceno levanta algumas questões sobre uma suposta estética brasileira, antes de mais nada, não me convém falar mais densamente sobre o projeto em si, muito menos uma análise técnica — nesse sentido, o gostar ou desgostar aqui, embora tenha sua significância para a abordagem desse texto, não é tão relevante.
O que me interessa é a recepção e o significado conceitual, vindo já de projetos conhecidos, a cabeça por trás de Sonhos Tomam Conta tem o objetivo da busca de uma "estética do rock propriamente brasileira", pensando a partir da junção de gêneros como Shoegaze, Post-Rock e Samba ou Afoxé. Juntamente ao lançamento do álbum, foi publicado um manifesto contando as intenções do projeto, juntamente com uma vasta análise histórica das raízes dessa sonoridade.
Há duas possibilidades díspares de recepção: ou do interesse pela originalidade do álbum — que vem se concretizando a partir da visibilidade online que ele vem recebendo, mas também do puro desgosto pela suposta pretensão, além de outras críticas válidas acerca de, mesmo que não intencional, um fetichismo nacionalista. Não é absurdo de se ver que, um projeto que seja tão autoexplicativo em seu lançamento, se torne um divisor de águas. Muito mais do que como a música soa, maior parte da reação surge a partir da roupagem, a embalagem, como ele é intencionado, e, nesse sentido, a missão foi devidamente concluída: maior parte das respostas se tratam desse fantasma da "estética brasileira", por consequência, vira um álbum-propaganda. Me pergunto quanto dessa percepção teria mudado se já não houvesse vídeos da Lua expressando críticas contra o colonialismo em nossa música, ou mesmo se nem houvesse o texto publicado no Substack. Acredito que ainda o tivesse, embora em menor quantidade, visto que o álbum até consegue sustentar bem seu caminho estético, o problema é que tenho certeza que a forma da crítica seria feita de outras maneiras.
A partir dessa conceitualização, da forma discursiva e expositiva que No Ritmo Da Terra foi mostrado, não é de se espantar que todos os detratores argumentem da exata maneira: a partir de uma orientação discursiva e expositiva. O que interessa é a lata, a pele, não o que está dentro do corpo em si e seus órgãos internos. Nesse sentido, o álbum não tem muito diferencial de diversos outros trabalhos nacionais, visto que uma crítica recorrente aqui é sempre a ansiedade em parecer brasileiro. Nada dessa turbulência é nova, e, honestamente, é provável que a sonoridade daqui venha a se tornar mais um caso isolado do que qualquer outra coisa, inutilizando suas ambições mais abrangentes. Essas consequências se intensificam quando a própria imagem se torna um inimigo de si mesmo: a fusão não se torna natural o suficiente por já ter uma inclinação forçada, não criando realmente uma síntese entre esses elementos opostos, mas um sincretismo de fato.
Assim me questiono: qual a diferença fundamental de um álbum assim para um filme do Kleber Mendonça Filho, por exemplo? Temos a localidade brasileira, os referenciais, o cenário, só que acima de tudo isso, ainda há essa linguagem habitualmente gringa. Não me entenda errado, não acho que haja um problema nisso, apoio você fazer música com influências de fora, ou mesmo de um gênero de fora, o problema é quando não há esse entendimento, pois acabamos por sufocar o potencial inerente dessa musicalidade para engarrafá-lo, assim sendo uma guitarra com bandeira do Brasil, não chamando atenção por conta de acordes — pois talvez eles nem tenham qualquer diferença gritante. O pensamento musical se perde ao pensamento-propaganda, acarretando no que se espera: um grande chamariz no início, para depois virar só algo isolado, tanto a ponto de soar delirante em suas próprias visões e, curiosamente, assim se distanciando do momento material em que nossa cultura se encontra — a autorreferencialidade artificial não consegue se sustentar no agora.
Acho crucial a compreensão de onde nossas linguagens surgem, mas essas nunca devem surgir como uma conclusão — pois daí vira propaganda, mas sim como um processo, pois é a partir dele que verdadeiramente se pensa artisticamente, inclusive, com o pensamento, há o sentimento, destroçando assim essa impressão de artificialidade. Quando realmente nos desprendermos dessa instrumentalização, surgirá um ser-artístico que se sustente para além de um álbum-gênero, visto que muito do que está aqui surge como resposta a esses: bandas que se orientam para replicação. Entretanto, aqui não se difere, visto que é um álbum-gênero + gênero, não um álbum-álbum.