Padre Oliver Rioult: quem é esse sacerdote?
Algumas reservas
“Mas, porque és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te” — Apocalipse III, 16.
Recentemente, tem ficado mais conhecida no Brasil a figura do abbé (padre) Oliver Rioult, especialmente divulgada por ex-sedevacantistas, que, ao que me consta, teriam saído do sedevacantismo há pouco tempo, talvez em 2025.
Me embati recentemente com algumas destas figuras e, tendo uma veia de jornalista investigativo, decidi investigar suas posições e um “ponto de convergência” entre todos eles: a figura deste padre chamado Oliver Rioult. Trago aqui as minhas descobertas, acompanhadas de reservas e observações.
Observação: aqui não se pretende julgar nem subjetiva nem formalmente a figura do padre Oliver Rioult
Quem é o padre Oliver Rioult?
A primeira coisa a se notar é que o padre Rioult é uma figura cuja biografia não é de fácil acesso e as informações sobre ele são esparsas e às vezes contraditórias. Foi ordenado por Dom Tissier de Mallerais em 1996 na FSSPX que viria a deixar mais tarde.
Têm-se notícias de que pelos idos de 2013 até 2014 foi membro da União Sacerdotal Marcel Lefebvre. Esta união rapidamente se dissolveu em 2014 devido às grandes dissenções dos membros.
O vemos assinando um documento com sacerdotes de Avrillé e da atual Resistência em 2014. Depois disso, o tempo aqui é incerto, mas com certeza em 2025 o vemos próximo do grupo sedeprivacionista IMBC (Instituto Mater Boni Consili) e da casa religiosa de Nîmes.
E aqui já se pode observar um sacerdote com um vasto histórico de mudança de posição, leia-se mudanças severas. Estas mudanças, na verdade, traçam um padrão: ele vai de aceitar a posição da FSSPX e depois a Resistência (ainda fundadas no mesmo chão), para terminar escrevendo:
“Minha opinião, que compromete apenas a mim, é que Francisco não pode ser papa no sentido pleno do termo” — Padre Oliver Rioult em carta de 2025.
É importante ressaltar que ele vai, efetivamente, tomar ações concretas a respeito desta opinião.
Visões a respeito do padre Oliver Rioult
Por mais que um daqueles com quem me embati, hoje, diga ser “incapacidade” ou “desonestidade intelectual”, chamar o pe. Oliver Rioult de sedevacantista, alguém bem próximo dele, em 2025, prefiro não citá-lo, vai chamá-lo exatamente disso, “(…) Padre Oliver Rioult, padre sedevacantista…”. Será que a capacidade e a honestidade floresceram tão rápido?
“Aos amigos os favores, aos inimigos a lei” — Maquiavel.
Os sedevacantistas decididos (aqueles que tomam sua hipótese teológica como doutrina) têm do pe. Oliver Rioult a opinião de que ele é exatamente isso, um sedevacantista, apesar de que não vão fazer a suficiente distinção entre a ideia dele (um sedevacantismo indeciso) e a deles mesmos.
Ao menos um dos ex-sedevacantistas sustenta que o pe. Oliver Rioult não é sedevacante e usa os comentários ao direito canônico de Dom Charles Augustin para concluir que ao não citar o nome do papa no Canon (“non una cum”) o pe. Oliver Rioult apenas tomava uma decisão prudencial para evitar escândalo ou confusão doutrinal.
Essa ideia é 1) incompleta e 2) absurda. Incompleta porque ignora o que o próprio padre define como sua opinião pessoal: “Francisco não pode ser papa no sentido pleno do termo”.
Absurda porque repousa no sofisma de uma livre interpretação deste comentário de Dom Charles Augustin, assumindo que rezar una cum é (ou pode ser) escândaloso e sinal de comunhão doutrinal. Por sinal, esse raciocínio é usado exatamente pelos sedevacantes/sedeprivacionistas). Falarei mais desse ponto adiante.
Um padre dominicano de Avrillé, quando perguntado, mencionou que o pe. Oliver Rioult é sedevacantista e desaconselhou sua doutrina. Por parte de um dos ex-sedevacantes foi lançada uma dúvida agressiva a respeito da veracidade deste comentário.
Mas de tudo que pude verificar não parece haver motivo para duvidar a não ser vontade de que não seja verdade. E se este for o critério, podemos muito bem colocar como “diz que me diz que” algumas menções do próprio padre Oliver Rioult usadas por este mesmo camarada para sustentar suas teses. Eu prefiro não fazer nem um nem outro.
E enfim, qualquer um é livre para entrar em contato diretamente com os dominicanos de Avrillé e confirmar se é verdade ou não. Eu não vejo motivo para suspeitar, então tomo esta como a visão de um sacerdote de Avrillé a respeito do padre Oliver Rioult:
“É sempre delicado criticar um sacerdote. Não pretendemos afirmar que ele não faça o bem, mas, para que se conheça a sua posição:
Ele não cita o nome do Papa no cânon da missa e é muito ligado aos sedevacantistas da Itália (Mater Boni Consilii), a quem solicita que o substituam quando se ausenta e de quem chega a trazer um bispo para as crismas.
(…)
De fato, ele escreve excelentes obras!
Mas é preciso lê-las sabendo que ele é sedevacantista, para não se surpreender com esta ou aquela alusão nesse sentido. Contudo, é possível que isso não transpareça em seus livros.”
— Padre Marie-Dominique.
O “pequeno catecismo do sedevacantismo”, inclusive, vai repetir esta exata forma de raciocinar, levando a crer que ou o suposto “forjador” é muito bom no que faz ou, de fato, são palavras de um sacerdote confiável sobre o pe. Oliver Rioult. O catecismo diz:
“Alguns sedevacantistas consideram sua posição uma ‘opinião provável’, e aceitam receber os sacramentos de padres não sedevacantistas (eu comento: ou ao menos não condenam)” — Recomendáveis os catecismos completos, disponíveis em francês e espanhol.
Sedevacantismo: a questão do non una cum
Sobre a questão do una cum, que é basicamente uma parte do Cânon da Missa em que se reza:
“In primis quae tibi offerimus pro Ecclesia tua sancta catholica, quam pacificare, custodire, adunare et regere digneris toto orbe terrarum una cum famulo tuo Papa nostro N.”
(Em primeiro lugar, vo-los oferecemos por vossa santa Igreja católica – dignai-vos, através do mundo inteiro, dar-lhe a paz, protegê-la, reuni-la na unidade e governá-la, – una cum teu servo nosso Papa N.).
Os sedevacantistas, propriamente, é que vão ler “una cum famulo tuo” como, basicamente, “em comunhão (doutrinal, dogmática, inclusive das heresias e erros) com vosso servo Papa tal…” e se escandalizarão, dizendo: “como podemos estar em comunhão com isso que ele defende?”.
Essa é uma interpretação completamente forçada do sentido das palavras, mesmo que una cum significasse “em comunhão com”. Primeiro que Santo Tomás de Aquino vai traduzir una cum como equivalente a et pro (“e por seu servo Papa tal…”), ou seja, reza-se por isso, aquilo, isso e aquilo e por…
Mas, ainda que se queira admitir una cum como “em comunhão”, afirmar estar em comunhão com o Papa não implica (nem parece implicar, objetivamente) estar em comunhão com seus erros. Se ao menos parecesse implicar, milhares de fiéis não assistiriam a tais missas e ainda condenariam a pachamama!
Não há, objetivamente, razão de escândalo e, portanto, não há objetivamente razão para esta tal prudência. Além do mais, o testemunho do grande Canon Hesse, tradutor dos sermões de Dom Marcel para o alemão, mostra que a prudência mesmo está do outro lado da balança (objetivamente):
“Mesmo que eu pessoalmente estivesse convencido de que ele não é Papa, pensa que eu sou estúpido? Se eu menciono João Paulo II no Cânon e, no Juízo Final, descubro que ele não é Papa, o que Deus fará comigo? Nada.
Mas e se eu acredito firmemente que ele não é Papa e não o menciono mais no Cânon, vindo a descobrir no Juízo final que ele era Papa? Oh-oh (“deu ruim…”). O ônus da prova é algo decisivo em matérias sensíveis como essa”.
A ideia de que não há risco objetivo para a salvação citar o Papa “una cum”, mesmo estando errado, não é “do padre Hesse” mas encontra respaldo na escolástica e no sentido óbvio da oração. Desta oração é impossível concluir: “e concordo com os escândalos e traições do pontífice”, impossível!
Bastaria que não fosse evidente para excluir qualquer espécie de prudência objetivamente justificável e sã em decidir rezar “non una cum” se o problema for esse. Agora, se a questão é “se é Papa ou não”, o caminho evidentemente prudente é citá-lo como Papa, enquanto havendo dúvida.
Objeção: “Mas, veja bem, Monsenhor Williamson permitiu que se rezasse non una cum, e inclusive se indagou: quem poderá culpar um padre que não menciona tal papa no canon?”
Resposta: Com muito respeito à figura de Mons. Williamson, e sem julgá-lo subjetivamente, mas ele igualmente comemorou ante a eleição de Donald Trump, que já na época era uma cria dos Adelsons e tinha um passado esquisito.
Outro ponto, Mons. Williamson teria sustentado esta permissão (citado numa nota de rodapé no livro do Pe. Oliver Rioult A Igreja e a Apostasia, p. 248) num tempo de grave confusão e grave pressão sobre si, o ano de 2014 e encontrou rejeição, a saber, do padre, agora bispo, Joseph Pfeiffer que comentou sobre o una cum num de seus sermões.
Terceiro, Mons Williamson vai nos anos seguintes dar ao menos uma aparência de mudança de postura e mencionar a extinção da União em que havia esta divisão na questão do una cum. Neste mesmo comentário ele vai deixar claro que não se pretende como líder de uma organização estruturada e como fundamento de opiniões e vai dizer:
“É meramente uma associação solta de sacerdotes que em todo o mundo veem a crise da Igreja da mesma forma, ou seja, que consideram que nem a Neoigreja do Vaticano II, nem os "sedevacantistas" contra o Vaticano II (pelo menos os dogmáticos) (…) têm a resposta certa…”.
Não sendo hipócrita, senhores, digo que objetivamente o Monsenhor permitiu, ao menos por um tempo, uma posição que Avrillé categoriza corretamente como objetivamente imprudente. Dom Marcel tolerou 9 padres não rezarem o una cum em 1980, mas faz menção a ter sido muito leniente com isso após expulsá-los em 83.
A estranha teologia das opiniões do padre Oliver Rioult
Toda a questão se fundamenta no seguinte raciocínio do padre Oliver Rioult que, se não repetido, é levado ao extremo por seus seguidores, ao menos aqui do Brasil:
“Somos um pouco como a cristandade do século XV, que se encontrava na impossibilidade de dizer com plena certeza se tal ou qual pessoa era ou não papa. (…) como em todas as épocas, encontram-se cristãos que fazem o seguinte raciocínio: segundo minhas luzes, a resposta correta é tal; e como é a resposta correta, todos devem aderir a ela. O sofisma é uma enormidade, mas recorrente: “Eu penso que a verdade é tal, logo esta é a verdade” (…) O grande São Cipriano estava errado; somente o juízo da Igreja é infalível. E a Igreja deu razão contrária a São Bernardo e a São Cipriano. Essa dificuldade não impede que se tenha uma opinião e que ela seja defendida, mas não a ponto de fazer dela um sinal de catolicidade. São Vicente Ferrer era por Avignon; Santa Catarina de Sena era por Roma!” — Padre Rioult em carta.
O padre deixa aí impresso o seguinte raciocínio: “as opiniões são o que são, luzes pessoais impressas no ar, ou ao menos não se pode seguramente tomá-las como algo além disso antes de definição ou censura, não se deve tomá-las por métrica de catolicidade, nem objetiva nem subjetivamente”.
E, na prática de seus argumentos e ações que se conhece, ele age como se as opiniões de que tratamos fossem neutras e niveladas, cartas em branco; isso explica estar um dia (com todo respeito) com gregos e outro com troianos, afinal, ambos têm apenas opiniões divergentes neste dado sentido.
As censuras eclesiásticas provam meu ponto
Ora, isso é explicitamente contradito pelas censuras teológicas, fundamentalmente duas: sentença ousada e sentença ofensiva aos ouvidos piedosos (há outras, male-sonans, “soa mal”, etc.). Esta última especialmente invoca por testemunha a piedade do ouvido Católico.
Eu posso dizer: “me desagradam as orações leoninas” e não estarei cometendo uma heresia, não estarei necessariamente blasfemando (não falei que as condeno), mas falei uma frase que é 1) ousada e 2) é ofensiva aos ouvidos piedosos.
Essas censuras são usadas pelos papas e universalmente reconhecidas na estrutura da Igreja e contradizem diretamente a ideia de uma fundamental neutralidade das opiniões.
Além do mais, antes mesmo da condenação, algumas dessas censuras apelam inclusive ao senso geral da Fé. Eu não preciso esperar uma condenação eclesiástica para ver que a frase “o Rosário não ajuda em nada” é ofensiva aos ouvidos piedosos!
Distinções: objetivo x subjetivo, material x formal
Objetivo: referente ao objeto, tratando enquanto coisa, fato.
Subjetivo: referente ao sujeito, tratando enquanto pessoa, intenção.
Material: referente à matéria, ao que é concretamente.
Formal: referente à forma, ao que se intenta a ser.
Mas aqui há que se distinguir outra coisa: “pode uma opinião ser sinal de catolicidade? Se sim, simplesmente, então sobra só uma seita, um seleto grupo, se não, a única conclusão é a do Pe. Rioult, opiniões são opiniões”.
Não vou dizer que há aqui um sofisma malicioso, nem tampouco acusar um sacerdote de fazê-lo, mas há falta de distinção, uma falta comum hoje. Existe uma distinção (racional e tradicional) entre objetivo e subjetivo.
Objetivamente, Santo Tomás de Aquino estava errado ao não defender a Imaculada Conceição, a verdade já era outra a seu tempo e já haviam outros que a conheciam, mas subjetivamente nada se lhe pode acusar.
Pergunta: há critérios objetivos para definir a prudência ou imprudência de se defender uma opinião?
Resposta: não só há como, novamente, está assim expresso nas censuras teológicas. Heresia próxima (hæresi proxima), por exemplo, é quando uma opinião ainda não sendo heresia está próxima de ser condenada como tal.
Pergunta: essas censuras e a questão da prudência nas opiniões necessariamente condenam o sujeito?
Resposta: não, este é um juízo objetivo, em nada avalia o quanto a pessoa sabe sobre, não julga subjetivamente. Assim é que eu posso dizer que o sedevacantismo posto em prática é objetivamente imprudente (cf. Pequeno catecismo do Sedevacantismo) e apresenta risco objetivo à salvação, sem, contudo, condenar o sujeito.
Pergunta: e quanto à catolicidade?
Resposta: é aqui que entra a distinção entre material e formal. Santo Tomás professou materialmente um erro, ou seja, neste ponto ele não representou a Fé Católica (muito cuidado) materialmente. Isso quer dizer que Santo Tomás cessou de ser Católico? Não! Mas também não oferece uma neutralidade de sua afirmação, até o aguardado momento duma definição!
Se uma criança, sendo catequizada, diz inocentemente “Deus é 4 pessoas!”, ela ao mesmo tempo 1) não é excomungada e nem pecou, e 2) não falou conforme a Fé Católica. Materialmente, cometeu um ato não-Católico, formalmente é Católica, ou presume-se Católica.
“Não una cum” é objetivamente errado. Sustentar que o Papa não é Papa, mesmo como probabile, é um risco objetivo para a salvação. Defender o sedevacantismo como algo já provado, por exemplo, é um erro material, se feito de boa-fé e formal se feito de má-fé.
A visão do padre sobre a Fraternidade e Dom Marcel Lefebvre: o erro posto em prática
Desta estranha teologia das opiniões nasce, na prática, uma postura de não revisar a fundo as opiniões ou julgar apenas com base no meu incerto, no aparente, no que eu entendi.
O padre Oliver Rioult, apesar de segundo os relatos ter sido ordenado na Fraternidade e ter pertencido a ela por muito tempo, contudo, dá mostras de não ter entendido o que a Fraternidade nasceu defendendo. Ele diz:
“reconheço o papa, mas resisto a ele. João Paulo II é papa, mas é um anticristo (Dom Lefebvre). Essa posição da FSSPX/Dom Lefebvre é insustentável. Segundo essa opinião, um verdadeiro papa da Igreja Romana poderia promulgar más leis para a Igreja Universal, canonizar santos escandalosos, ensinar um magistério defeituoso, promover um culto que favoreça a heresia, validar sacramentos duvidosos e praticar um modo de governo que empurre os católicos à apostasia” — Padre Rioult em carta.
São uma série de más compreensões:
1) “Promulgar más leis”, não é isso que se defende (ao menos majoritariamente), mas antes que as más leis aparentemente promulgadas são nulas e vazias e não obrigam a consciência.
2) “Canonizar santos escandalosos”, a Fraternidade toma por duvidosas as canonizações desde João Paulo II, como um todo.
3) “Ensinar um magistério defeituoso”, Dom Marcel e a Fraternidade, de forma geral, rejeitaram como nulo e sem efeito tudo que há de defeituoso no Novo Magistério, e explicações teológicas complementares ou sinônimas vão ser inclusive desenvolvidas nesse sentido.
4) “Praticar um modo de governo que empurre os católicos à apostasia”, não seria a primeira vez que isso acontece na história do papado, nem de longe, inclusive São Belarmino tratará disso (De Romano Pontifice II, XIX).
Consenso entre os seguidores: a livre interpretação da questão das “opiniões”
Uma das acusações que recebi foi de clubista enquanto me embati com um dos ex-sedevacantistas, mas acho engraçada uma coisa: neste ponto anterior que eu apresentei não só eles vão apresentar uma coerência doutrinal, ao redor deste mesmo padre, como vão basicamente tomá-la por evidente!
não só eles vão apresentar uma coerência doutrinal, ao redor deste mesmo padre, como vão basicamente tomá-la por evidente!
Isso explica o que abordei antes, eles serem ex-sede vacantistas (a maioria, senão todos, que eu saiba, próximos do IBP) e terem por base um padre admitidamente sedevacantista “probabile”.
Basicamente: “como as opiniões são rótulos que não representam formas reais de se aproximar da realidade (ao menos não com certeza) — como são cartas em branco — então tudo bem eu me embasar num padre sedevacantista e discordar diametralmente dele nisso, desde que a base seja a mesma entre nós e ele!”
“Não há contradição aí”, tal como “não haveria contradição” defender a Tradição e a hermenêutica da continuidade na mente dum modernista!
E essa adesão, temo dizer, não do padre em si de quem me abstenho de comentar, mas do que vi de seus seguidores, vem antes de uma visão emocional e advinda de traumas do que factual.
O fantasma do “sectarismo” contra o proceder dos Católicos
E isso cria um fantasma perigoso: o sectarismo. Acusar todo aquele que defende firmemente o que crê de clubista, de sectarista. Ora, provo ponto por ponto que essa visão vai contra o proceder dos Católicos e rotula os santos como sectaristas:
Santo Hipólito de Roma se declarou papa (antipapa) após conflito com o papa de então, vindo a se reconciliarem apenas 18 anos depois, recebendo a palma do martírio. Ele definitivamente cai na “navalha do sectarismo” e é santo.
Santo Agostinho e São Jerônimo vão ambos fortemente defender agressivamente suas posições a respeito da correção de São Paulo, a posição de Santo Agostinho vai depois ser confirmada no consenso geral (ele estava certo), mas ambos são santos e ambos cairiam na “navalha do sectarismo”.
São Máximo, Confessor, herói do oriente, defendeu o diotelismo e condenou o monotelismo ao ponto da tortura mesmo anos antes de uma condenação formal por um concílio geral ou ecumênico. Ele hoje é santo, caiu na navalha e seus opositores heréticos e anti-católicos.
São Bruno de Segni vai, acertadamente, dizer que o papa agiu com traição na Querela das Investiduras (o papa mesmo viria a recantar depois) e será reunido um sínodo com a presença de pelo menos 2 santos, dizendo que o papa os estaria “forçando à desobediência”. Um outro santo criticou severamente este sínodo. Os santos dos dois lados foram canonizados.
Santo Tomás de Aquino vai dizer que errado estava São Gregório de Níssa ao concluir que o homem e a mulher (Adão e Eva), no paraíso, se reproduziriam como os anjos. Os dois caem na “navalha do sectarismo”; Santo Tomás estava certo ao chamar a outra opinião de irracional, mas os dois são santos.
São Vicente Ferrer e Santa Catarina de Siena, para fechar com o exemplo do próprio padre, ambos vão firmemente tomar suas posições. São Vicente, é verdade, vai nutrir dúvidas em alguns momentos, mas vai sempre ter noção da seriedade do que está em jogo e terá boa-fé ao fazer sua defesa.
Conclusão
Daqui se conclui que os Católicos, a exemplo dos santos, sempre foram firmes em defender o que acreditam; isso não é qualquer espécie de sectarismo, nem tampouco uma tentação ou um sofisma, é antes parte da forma de raciocinar Católica, mesmo quando objetivamente se faz a defesa errada.
Eu chamaria de sofisma, na verdade, olhar apenas os casos em que tal ou qual pessoa estava materialmente errada em agir assim e esquecer os outros inúmeros (como o de São Máximo Confessor) em que ela estava certíssima!
Tomar uma posição não pode ser uma carta em branco, fundamentalmente se, como disse o Canon Hesse, tratamos de temas sensíveis que, quanto mais sensíveis, menos admitem um em cima do muro ou uma análise sem cautela, tanto objetivamente como mesmo subjetivamente.
Se me perguntam: “sorvete de creme ou de flocos?”, nada de mais há em responder “não sei”. Agora, se me perguntam: “teu pai, com quem você convive diariamente, é um homem de caráter ou não?”, a resposta “não sei” simplesmente já não se encaixa.
Urbano VI, papa de Roma no Cisma, é 1) citado no anuário pontifício, 2) admitido até onde eu saiba consensualmente como papa legítimo, 3) as principais questões a respeito da confusão que gerou o cisma estão hoje bem claras e ao menos para um certo grupo estavam bem claras já na altura.
Quando Santa Joana d’Arc era julgada, apenas o escrivão do caso percebeu que era uma inocente sendo condenada, isso deveria impedi-lo de depor em sua causa de canonização por medo de “sectarismo”?
Por favor, senhores (excluo aqui o padre)! Defender algo com firmeza e justas razões é senso comum, não sectarismo. É completamente absurdo eu, sem os critérios acima, acusar o pai do leitor de trair sua mulher e, no dia seguinte, vir dar-lhe um abraço como se nada tivesse feito!
Enfim, eis aqui as reservas a respeito deste padre, pelo qual todos devemos rezar, igualmente seus seguidores. Me embaso na autoridade dos padres de Avrillé e de tudo mais que citei como autoridade: desaconselho-o sobre sua doutrina. E, sobre os ex-sedevacantes, passei a nutrir severa desconfiança sobre eles. Ave Corredentora! Viva Cristo Rei!