AOS GRANDES DO FUTURO, CONTRA OS PEQUENOS DO PRESENTE
O Recolhedor, 15 de junho de 2026
Considerando a reação histérica de alguns maliciosos perante a publicação nossa de um trecho de Les Provinciales (“As Provinciais”), uma série de cartas escritas pelo famoso filósofo e matemático francês Blaise Pascal, julgamos apropriado redigir esta breve nota para discernimento dos homens de boa vontade da posteridade que vierem a se debruçar sobre a história desta controvérsia.
Evidentemente, em nenhum momento tivemos a pretensão de esposar teses heréticas (no caso, jansenistas) e anunciá-las por meio da publicação de um autor assim rotulado. O intuito de Blaise Pascal em suas famosas cartas foi denunciar a moral escandalosa que havia se tornado hegemônica na conversa Companhia de Jesus, e não empreender uma defesa da posição jansenista, razão pela qual a inclusão desta obra em particular no Index se deveu antes a conveniências políticas — leia-se lobby jesuíta — do que à heresia propriamente dita. Ainda assim, mesmo não havendo pretensão alguma por parte de Pascal de afirmar, reafirmar ou defender teses jansenistas nessas cartas, tivemos a prudência e sensatez de colher delas um trecho (a oitava carta) em que não há sequer discurso retórico que resulte em alguma conquista de simpatia em favor dos seguidores de Cornelius Jansenius.
Ora, tão “jansenista” era a denúncia de Pascal em suas cartas que a Assembléia Geral do Clero francês em 1656 a acolheu e julgou procedente, ou seja, Pascal estava certo ao apontar as inúmeras opiniões escandalosas contidas em várias obras de teólogos laxistas jesuítas. Mais ainda, boa parte das proposições condenadas pelo Beato Inocêncio XI em sua bula Sanctissimus Dominus procede do rol de citações de Pascal. De modo que nenhum Hilaire Belloc, Dominic Prummer ou Adolphe Tanquerey, homens daquela Igreja do início do século XX que não foi vítima de Vaticano II, mas a causa mesma dele, será capaz de reescrever com êxito a história da Igreja no século XVII. Aliás, outras tentativas de falsificação da história eclesiástica naquele período serão objeto de publicações futuras pelo Recolhedor.
Se um filho de Port-Royal foi o único responsável por botar o dedo na ferida e denunciar as peripécias da então decadente Companhia de Jesus, é porque até mesmo a venerável Ordem Dominicana, de quem sempre se esperou o exercício mesmo do carisma da pregação da reta doutrina da fé e da moral, havia sucumbido ao fingimento, à hipocrisia e à politicagem da época, preferindo antes como solução de compromisso o silêncio tácito do que a guerra franca e aberta. Foi somente após a circulação das cartas de Louis de Montalte que vieram à luz obras de crítica à moral laxista. Tamanho era o poder e influência do probabilismo (apenas o nome técnico do laxismo) dentro da Companhia de Jesus, que um de seus filhos, Miguel de Elizalde, foi obrigado a publicar sua obra crítica, De recta doctrina morum (1670), debaixo de um pseudônimo (Antonio Celladei); anos mais tarde, outro teólogo, o franciscano Bernardino Ciaffoni, teve sua Apologia in favore de’ Santi Padri contro quei che nelle materie morali fanno de medesimo poca stima (1696) posta no Index em 1701 por ferir os sentimentos piedosíssimos dos jesuítas. Coitado, devia ser um pérfido jansenista, não? Magoou.
Trazer à discussão este episódio altamente relevante da história da Igreja, com consequências terríveis para nós, fiéis brasileiros, que fomos (des)educados pela moral casuísta da restrição mental, da direção de intenção e do “jeitinho”, foi um ato de benevolência da nossa parte. Sosseguem, pois, os maliciosos: não queremos converter ninguém a nenhuma heresia tanto mais odiosa quanto mais desconhecida.